Este artigo é um exemplo dentre tantos outros relacionados às desventuras que acontecem diariamente nas escolas, muitas vezes consequência de uma impregnação cultural, a qual as pessoas fazem o que fazem não porque é o certo a se fazer, mas simplesmente porque, mesmo sendo errado, (quase) todos fazem. Vejamos:
Existem alguns professores que conseguem ministrar, ao mesmo tempo, aulas em duas salas diferentes. Essa façanha não se aprende na faculdade, mas acontece com bastante frequência, e em mais escolas do que o leitor poderia imaginar. Como toda mágica, esta necessita de alguns pressupostos para funcionar: ocorre somente em escolas que dividem o tempo em aulas; em turmas que têm mais de um professor; e os alunos, professores, pais e a direção da escola (Secretaria de Educação?) devem querer ou aceitar.
Tudo se inicia com um professor do Ensino Fundamental II de, digamos, Ciências, que faltou ao trabalho, sem um aviso prévio na escola e sem levar ninguém para substituí-lo. Assim sendo, as salas em que o professor daria aula neste dia irão ficar com horários vagos. Os alunos então, para não ficarem ociosos na escola - poderão ficar por até duas aulas (1 hora e 40 minutos) sem fazer nada-, vão à sala em que está o professor que dará a eles aula no horário seguinte ao da aula de Ciências e pedem para que este “suba a aula”.
“Subir a aula” significa que o professor continuará dando aulas presencialmente para a turma em que se encontra, mas também adiantará as suas aulas na turma que está sem professor. Como? Basta entregar uma folha de seu caderno contendo um texto com a matéria referente à aula que daria àquela turma e um giz a um dos alunos. Este aluno copiará a matéria na lousa enquanto que os colegas transcrevem a matéria no caderno, e pronto, a aula(?) está sendo dada nas duas salas. Em uma sala pelo professor, e em outra pela sua folha de papel.
Enfim, é esta mesma impregnação cultural que faz com que a semana pedagógica tenha apenas dois dias, que as aulas das escolas do Estado comecem apenas em Março (para acabar no dia 28 de Dezembro), que professores trabalhem em duas ou mais escolas diferentes, que estudantes que ainda estão na graduação assumam uma sala de aula... Pensemos com Brecht:
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Thiago Baptistella Cabral escreve a convite do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), que publica artigos neste espaço às sextas-feiras.