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23/07/2010

Rédea curta
José Pacheco

Publicado em Diário de Natal

A notícia veio de Campinas, mas poderia vir de outro lugar: três alunos colaram uma professora na cadeira, foram expulsos e transferidos para outras escolas. Este lamentável episódio terá sido o corolário da tolerância do intolerável. Mas porquê criminalizar a indisciplina, agindo sobre consequências, se já é tempo de agir sobre as causas? De que servirá expulsar alunos? A violência será resposta para a violência? Se o discurso é unânime - É preciso reforçar a autoridade dos professores! - a prática contraria o discurso. A regra é a transferência da autoridade do professor para os órgãos de gestão e para burocráticos procedimentos disciplinares.

Autoridade não rima com controle, imposição, submissão. Etimologicamente, a palavra autoridade significa "ajudar a crescer". Ajudar a crescer pressupõe o exercício do diálogo e a desocultação de perversos modos de relação. Como diria o Brecht, diz-se das águas de um rio que são violentas, mas nada se diz das margens que as comprimem... Por mais que custa reconhecer, perante a violência simbólica imposta pelas escolas, a desobediência e a indisciplina poderão ser manifestações de sanidade mental. E, entre os alunos considerados "normais", poderão estar potenciais assassinos. Veja-se o que vem acontecendo nos Estados Unidos e na Finlândia, onde alunos "bem comportados" se munem de carabinas e matam colegas e professores.

Longe vai o tempo em que o pai era a autoridade na família e em que o professor era a autoridade na escola. Os jovens deveriam obedecer a ordens e estar atentos às lições. Hoje, a indisciplina - herdeira do autoritarismo e da permissividade - ocupa o lugar desse "respeitinho" de antigamente.

Apesar de reconhecer a complexidade do assunto, ouso apontar pistas de reflexão. Numa escola, onde trabalhei durante mais de trinta anos, acolhemos jovens expulsos de outras escolas - porque maltrataram ou puseram professores em estado de coma - e não nos confrontamos com falta de autoridade. Não aconteceu por milagre, mas porque reelaboramos a nossa cultura pessoal e profissional, porque reconfiguramos as nossas práticas, deixamos de estar sozinhos na nossa sala de aula. Porque compreendemos que, onde não há diálogo, há violência, colocamos uma pedagogia da pergunta no lugar antes ocupado pela da resposta, escutando o outro e levando em consideração o que o outro nos dissesse. Porque nos apercebemos que não poderíamos resolver os problemas da criança sem resolver os problemas dos adultos - ninguém dá aquilo que não tem, ninguém transmite aquilo que não é - e de uma educação para a cidadania passamos a uma prática de educação na cidadania.

Os estatutos não se confundem - professor é professor; aluno é aluno. Mas, para que consiga recuperar a autoridade, é necessário que o professor se conheça afetivamente e se reconheça no outro. A segurança gerada permite ao professor ser senhor de si, elevar a auto-estima e beneficiar de hetero-estima. Mas quem cuida da melhoria da formação pessoal e social do professor? Quando se operará a ruptura com a cultura do "cada qual por si", que infesta as nossas escolas?

Bem cedo, o meu amigo Filipe tomou consciência do drama: "Recordo-me do meu maior receio, o não conseguir controlar a turma! Na faculdade, ensinaram-me que não podia dar confiança aos alunos, porque eles abusariam. Na sala dos professores, aprendi que se mantinha os alunos quietos marcando faltas disciplinares. Os meus colegas mais velhos foram claros: "Tens de os ter na linha, dar-lhes rédea curta!" Comecei a colocar alunos na rua, até as aulas começarem a tomar um rumo. Bastava a rédea curta..."

José Pacheco, educador português, idealizador do projeto da Escola da Ponte, escreve a convite do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), que publica artigos neste espaço às sextas-feiras.

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